Foto: @revistabrutus

Estilo em 2026: o logo saiu, a intenção ficou

O mercado global de streetwear vale US$ 218 bilhões e cresce todo ano. Mas o que está mudando não é o tamanho do mercado — é o critério de quem compra. A era do logotipo como argumento acabou. O que define um bom look em 2026 é proporção, referência e convicção.


Durante pelo menos uma década, o streetwear funcionou assim: você comprava o logo, usava o logo, era reconhecido pelo logo. A Supreme, a Off-White, a Balenciaga em tamanho gigante no peito. A peça não precisava fazer mais nada além de anunciar que você tinha conseguido comprá-la.

Esse tempo passou.

Em 2026, o critério mudou. Não porque o streetwear perdeu força — o mercado global do setor está projetado em US$ 218 bilhões este ano, segundo a Verified Market Research, e conteúdo de street style gera três vezes mais engajamento em redes sociais do que fashion editorial tradicional. A força está toda lá. O que mudou é o que as pessoas mais antenadas estão usando como argumento de estilo.

A conversa agora é sobre proporção. Sobre referência cultural. Sobre a peça que você escolheu e por quê. É mais difícil de explicar do que um logotipo — e exatamente por isso é mais interessante.


Volume com intenção — não volume por volume

A silhueta oversized domina o streetwear há alguns anos. Mas em 2026, segundo análise da WGSN e reportagens da Complex, o conceito evoluiu para o que está sendo chamado de “volume considerado” — a diferença entre um look que parece grande porque a pessoa não encontrou o tamanho certo e um look que usa a proporção como declaração deliberada.

A regra prática é simples: uma peça oversized, uma peça ajustada. Um bomber largo sobre uma calça slim. Uma cargo de perna ampla com uma camiseta que fecha no corpo. Essa tensão entre volume e estrutura é o que sinaliza que o look foi pensado — não apenas vestido.

O que sai de cena é o excesso de volume em todas as direções ao mesmo tempo. Moletom largo, calça larga, tênis plataforma — tudo grande, nada dialogando. O que entra é a composição: saber onde colocar a leveza e onde colocar o peso visual.

Para quem está construindo ou revisando o guarda-roupa, isso tem uma implicação prática direta: não é necessário comprar tudo de novo. É necessário entender o que já tem e como usar as peças em proporção intencional.

Foto: @revistabrutus
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DONDA Core: a referência cultural que voltou com dez anos de saudade

Em fevereiro de 2026 completaram-se dez anos do lançamento de The Life of Pablo, de Kanye West. E com o aniversário, voltou ao centro das atenções uma estética que Kanye, Virgil Abloh e a agência criativa DONDA desenvolveram entre 2014 e 2016 — e que nunca havia realmente ido embora para quem acompanhava de perto.

O que está sendo chamado de “DONDA Core” não é uma tendência de marca. É uma referência de período: as camisas de flanela e track pants da primeira coleção da Fear of God de Jerry Lorenzo, os hoodies do Pyrex Vision de Virgil Abloh, os snapbacks de aba de python da Just Don, as tees rasgadas da Been Trill. Peças que circularam num momento específico de criatividade coletiva antes que qualquer um daquele grupo se tornasse o que se tornaria depois.

O que torna essa referência relevante para além da nostalgia é o que ela representa como filosofia de estilo: peças simples, sem ostentação de logotipo, com qualidade de construção e uma leveza que parece casual mas nunca é. É o streetwear que prefere não parecer que está tentando.

Para quem não viveu aquele período na época, o caminho de entrada é via Fear of God Essentials — a linha mais acessível de Jerry Lorenzo, que mantém a estética sem o preço da linha principal — e via brechós e plataformas de revenda como Depop e Grailed, onde peças da época ainda circulam.

Foto: @revistabrutus
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A alfaiataria que parou de pedir licença

Uma das mudanças mais consistentes nas passarelas e nas ruas em 2026 é a entrada definitiva da alfaiataria no território do streetwear. Não como novidade — essa aproximação existe há anos — mas como consolidação: a peça de corte estruturado combinada com tênis e camiseta deixou de ser ousadia e virou opção natural.

No Rio Fashion Week 2026, realizado no Pier Mauá em abril, a alfaiataria apareceu reinventada em várias coleções — com cortes ousados, proporções inesperadas e a marca Dendezeiro trazendo o terno com bermuda como destaque. Angela Brito, sempre precisa em construção, reforçou que alfaiataria de qualidade não tem limite de contexto de uso.

No streetwear internacional, a fusão se manifesta na popularidade crescente de marcas como Carhartt WIP — que sempre trabalhou com a lógica de utilitário estruturado — e na influência de labels que transitam entre tailoring e casualwear sem escolher um dos dois.

O princípio que funciona: a peça de alfaiataria é o âncora do look. Tudo ao redor pode ser solto, mas o blazer ou a calça de corte precisa de construção real. Pano bom, costura correta, caimento que funciona no corpo. Qualidade que você sente quando veste, sem precisar ver a etiqueta.


Tênis slim: o chunky ficou para trás

Por alguns anos, a regra não escrita era que tênis grande era tênis melhor. Plataformas, solas grossas, modelos que acrescentavam centímetros visíveis à silhueta.

Em 2026, Who What Wear e MR PORTER identificam uma virada consistente: os sneakers de perfil slim, com referências dos anos 80 e 90, ultrapassaram os chunky como modelo dominante nas semanas de moda e no street style global. Heritage runners da New Balance, Asics e Adidas em silhuetas mais finas lideram essa mudança.

No Brasil, o movimento já estava em curso antes: o Adidas Gazelle e o New Balance 574 vinham ganhando espaço de forma silenciosa enquanto os chunky dominavam as vitrines. Agora a virada é evidente.

O Casio G-Shock também está de volta nesse contexto — não como item de luxo, mas como peça utilitária com história. Apareceu nos pulsos de Pharrell e Kid Cudi nos anos 2000, recebeu releituras da Stüssy e da Bape, e em 2026 ressurge como o relógio que resolve sem precisar dizer mais nada.

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Copa do Mundo e o impacto no estilo brasileiro

Entre junho e julho de 2026, EUA, Canadá e México sediam a Copa do Mundo. O impacto no estilo é imediato e documentado: camisas de seleção viram item de moda, a estética esportiva ganha força no streetwear e colaborações entre marcas esportivas e casas de moda se multiplicam.

No Brasil, o futebol sempre atravessou o vestir. Em 2026, a combinação de Copa do Mundo no continente americano com o retorno do Rio Fashion Week ao calendário oficial — pela primeira vez em dez anos, com a volta de marcas como Osklen, Blue Man e a parceria da Adidas com a Piet — cria um momento de visibilidade da moda brasileira que não acontecia há muito tempo.

A Piet, marca paulistana que se tornou referência em streetwear de construção premium, é talvez o melhor exemplo do que está acontecendo na cena local: design que dialoga com referências internacionais sem abrir mão de uma identidade própria, produção cuidadosa e uma recusa em escalar de forma que comprometa a qualidade.


Como pensar o guarda-roupa agora

Não existe fórmula que funcione para todo mundo. Mas existem princípios que tornam qualquer combinação mais coerente.

Invista em básicos de qualidade real. Camiseta branca de bom algodão. Calça cargo com construção correta. Moletom que mantém a forma depois de cem lavagens. Essas peças são a infraestrutura — o que está ao redor delas pode mudar, elas ficam.

Escolha um tênis que resolve. Em 2026, um slim runner neutro — New Balance 574, Asics Gel-Lyte, Adidas Samba — funciona com quase tudo e não compete com o resto do look.

Uma peça oversized, uma ajustada. A regra de proporção que define o momento.

Qualidade sobre quantidade. O streetwear de 2026 está se movendo em direção a peças que duram — materiais mais resistentes, cortes que não se deformam, design que envelhece bem. Comprar menos e melhor não é discurso sustentável performático. É o critério que separa o guarda-roupa que funciona do que acumula arrependimentos.


📦 BOX DE SERVIÇO

Marcas brasileiras para acompanhar: Piet — piet.com.br Osklen — osklen.com Dendezeiro — @dendezeiro Apartamento 03 — @apartamento03oficial

Marcas internacionais com presença no Brasil: Fear of God Essentials — disponível em multimarcas premium e via importação Carhartt WIP — carhartt-wip.com / revendas autorizadas em SP e RJ Stüssy — stussy.com / importação e multimarcas

Revenda de peças de referência: Grailed — grailed.com (plataforma internacional, envio ao Brasil) Depop — depop.com (streetwear vintage e contemporâneo) Enjoei — enjoei.com.br (revenda nacional)

Tênis slim para começar: New Balance 574 | Asics Gel-Lyte III | Adidas Samba | Adidas Gazelle | Nike Cortez

Casio G-Shock de referência: G-Shock DW-5600 (o clássico) e DW-6900 (um pouco maior, mais presença no pulso) Disponíveis nas Casio Concept Stores e grandes varejistas nacionais


📎 FONTES

  • Klodsy — “Street Style Fashion: Outfit Guide for 2026” — klodsy.com, maio 2026
  • Complex — “10 Fashion Trends We Think Will Run Streetwear in 2026” — complex.com, janeiro 2026
  • Verified Market Research — dados de mercado streetwear global 2026 — via klodsy.com
  • Fashion Bubbles — “Rio Fashion Week 2026: 10 tendências que dominaram as passarelas cariocas” — fashionbubbles.com, abril 2026
  • Mondo Moda — “O Retorno Histórico: Rio Fashion Week 2026” — mondomoda.com.br, abril 2026
  • Backstage Fashion Stories — “Moda e cultura em 2026: onde o estilo acontece de verdade” — backstagefashionstories.com, janeiro 2026
  • Kings Sneakers — “5 tendências de streetwear que vão dominar 2026” — lojakings.com.br, janeiro 2026

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