O algoritmo escolhe por você. A questão é se você vai deixar

Tocar um disco inteiro. Fotografar em filme. Ler um livro que não foi recomendado por nenhuma plataforma. O mundo está descobrindo algo que quem tem critério nunca esqueceu — e os dados de 2026 confirmam a virada.


Em março deste ano, o The Guardian publicou um dado que merece pausa: as vendas de vinil nos Estados Unidos ultrapassaram US$ 1,04 bilhão em 2025 — o 19º ano consecutivo de crescimento e a primeira vez que a receita anual de vinil cruza a marca de um bilhão desde 1983. Não é nostalgia de colecionador. Entre os artistas mais vendidos em formato físico estão Taylor Swift, Sabrina Carpenter e Kendrick Lamar. O mercado é absolutamente contemporâneo.

Na mesma direção: a Kodak reportou que a demanda por filme 35mm dobrou entre 2021 e 2026. Preços subiram 9% só no segundo semestre de 2025 por pressão de demanda — o oposto do que acontece com tecnologias em declínio.

Esses números não estão contando uma história de nostalgia. Estão contando uma história de escolha.

@revistabrutus
@revistabrutus

O que a intenção tem que o stream não tem

Existe uma operação física em tocar um disco que não existe em apertar play no Spotify. Você tira o LP da prateleira. Desliza o vinil para fora da capa. Coloca no prato. Posiciona a agulha. Então a música começa — e você está comprometido. Não dá para pular faixas com a mesma facilidade. Não dá para deixar rolando em segundo plano enquanto faz outra coisa sem prestar atenção. Você ouve o álbum na ordem em que foi criado, como o artista decidiu que deveria ser ouvido.

Esse ritual cria uma relação diferente com a música. Não melhor por princípio — diferente por estrutura. Uma estrutura que exige presença.

O mesmo vale para a fotografia em filme. Com 24 ou 36 frames por rolo, cada clique custa algo — tempo, atenção, dinheiro no revelado. Quem fotografa em filme pensa antes de apertar o obturador. Quem fotografa no celular tira 50 fotos do mesmo ângulo e deleta 49. O resultado não é necessariamente melhor, mas o processo é fundamentalmente distinto: um exige comprometimento, o outro não exige nada.

Isso é o que o InsideHook identificou como o fio condutor de todos os comportamentos que estão moldando a vida adulta em 2026: intenção. Não desapego da tecnologia. Não rejeição ao moderno. A escolha deliberada de quando e como se engaja com o que consome.

@revistabrutus
@revistabrutus

O que o algoritmo faz com o seu gosto

Kyle Chayka, jornalista do The New Yorker, cunhou a expressão “achatamento da cultura” para descrever um fenômeno que qualquer pessoa que presta atenção já percebeu: quando um algoritmo decide o que você vai consumir, o resultado tende à homogeneização. Plataformas de streaming otimizam para retenção, não para expansão de repertório. O resultado é que quanto mais você usa, mais você recebe do mesmo — versões levemente diferentes do que você já demonstrou que consome.

O oposto de um algoritmo é uma escolha sua.

Quando você entra numa loja de discos sem saber o que vai comprar, quando você escolhe um livro pela capa ou pelo conselho de alguém que você respeita, quando você decide que vai ao show de uma banda que você mal conhece porque o set da abertura era bom — você está construindo gosto. Não consumindo o que já foi mapeado como seu gosto.

Essa distinção importa mais do que parece. Gosto construído ativamente tem textura. Tem referências cruzadas. Tem a capacidade de surpreender quem o tem. Gosto formado por algoritmo é uma câmara de eco cada vez mais estreita.

@revistabrutus
@revistabrutus

Por que isso não é tendência — é postura

Há um risco legítimo nessa conversa: a transformação do “analógico” em produto. O Substack já está cheio de newsletters sobre slow living. O TikTok, ironicamente, está cheio de vídeos sobre como largar o TikTok. Marcas já estão vendendo a estética da desconexão como identidade de consumo.

Isso é o oposto do que vale a pena.

O que tem significado não é usar filme porque está na moda usar filme. É a postura subjacente — a recusa em delegar para uma plataforma as decisões sobre o que você vai ouvir, ver, ler, descobrir. Essa postura não é nova. Não surgiu em 2026. É o mesmo princípio de quem sempre pesquisou o artista antes de tatuar, ouviu o disco inteiro, escolheu a cerveja pelo estilo e não pela promoção, leu o rótulo antes de pedir.

O que 2026 está fazendo é simplesmente confirmar que esse jeito de existir no mundo resiste ao tempo — e que uma parte do mundo está lentamente chegando até ele.


BOX DE SERVIÇO

Se você quer começar a construir escolha com mais intenção:

Vinil: Lojas físicas continuam sendo o melhor ponto de entrada — Livraria Cultura (São Paulo, Rio), Loja do Som (São Paulo), Vinyl Records Brasil (e-commerce) e brechinhas de disco nos fins de semana em São Paulo e Curitiba.

Fotografia em filme: Câmeras analógicas funcionais custam entre R$ 150 e R$ 600 nas plataformas de usados. Filmes Kodak Gold 200 e Fuji 400 disponíveis em lojas de fotografia e online. Revelação em São Paulo: Foto Passeio, Estação Revelação.

Leitura física: Qualquer livraria independente da sua cidade. Sebos para o prazer de não saber o que vai encontrar.

Comments are closed, but trackbacks and pingbacks are open.