Inferno chegou — e os Boards of Canada fizeram o álbum que só eles podiam fazer agora

Treze anos de silêncio. Uma campanha de marketing em fitas VHS. E um álbum que não soa como nostalgia — soa como dois irmãos que entenderam exatamente o que o mundo precisava ouvir agora.


Em 2013, Tomorrow’s Harvest soou como o fim de alguma coisa. Paletas escuras, texturas industriais, uma sensação de colapso iminente capturada em música. Era o álbum mais sombrio que os Boards of Canada já tinham feito — e depois dele, Marcus Eoin e Mike Sandison desapareceram de novo.

Treze anos. Enquanto a estética que eles ajudaram a criar nos anos 90 era absorvida por playlists de concentração no Spotify e trilhas sonoras de séries nostálgicas da Netflix, os irmãos escoceses permaneceram em silêncio. Não havia declarações, não havia “estamos trabalhando em algo novo”. Só ausência.

Então, em maio de 2025, um site usado na campanha de marketing de Tomorrow’s Harvest voltou a funcionar com uma mensagem: “nobody home”. E a máquina dos Boards of Canada começou a girar de novo.

Inferno sai hoje pela Warp Records. E é exatamente o álbum que 2026 merecia.


A campanha que antecedeu tudo

Faz parte do DNA dos Boards of Canada transformar o lançamento de um álbum em evento cultural próprio. Music Has the Right to Children chegou via transmissões de rádio piratas em 1998. Geogaddi veio acompanhado de teorias conspiracionistas sobre mensagens subliminares. Tomorrow’s Harvest teve um ARG complexo com códigos e coordenadas geográficas.

Inferno chegou em fitas VHS.

A partir de abril de 2026, fãs com endereços em listas de e-mail inativas há anos começaram a receber pacotes pelo correio — fitas VHS sem identificação além do logo hexagonal da dupla. As fitas continham fragmentos de música nova. Pôsteres misteriosos apareceram em cidades ao redor do mundo. Em 16 de abril, a dupla lançou “Tape 05” — a primeira música original em 13 anos — sem aviso prévio.

O anúncio oficial veio em 22 de abril. O álbum completo, hoje.


O que Inferno entrega

É um álbum mais denso e mais urgente do que qualquer coisa que os Boards of Canada fizeram antes — e ao mesmo tempo inconfundivelmente deles.

As guitarras, que apareceram brevemente em The Campfire Headphase (2005), voltam com mais presença. “Prophecy at 1420 MHz”, a segunda faixa, é uma das mais brutais que a dupla já criou — uma ruptura abrupta e cirúrgica que o DJ Mag descreve como tendo a precisão de um míssil balístico. Não é a escuridão suave e nostálgica de Geogaddi — é algo mais clínico, mais intencional.

Mas Inferno não é só tensão. “Into the Magic Land” mergulha nas influências shoegaze da dupla com guitarras reverberantes e percussão cavernosa. “Deep Time” — a “Tape 05” relançada como faixa 5 com título definitivo — pulsa com cordas dedilhadas e madeiras flutuantes. E perto do final, “You Retreat in Time and Space” entrega uma melodia tão suave que o Resident Advisor a compara com canções de ninar — um amanhecer sereno depois de tudo que veio antes.

O fechamento é “I Saw Through Platonia”, construída ao redor de um único som: uma gravação de batimento cardíaco humano. Depois de 70 minutos navegando pelo colapso contemporâneo, os Boards of Canada voltam ao mais básico — a prova de que ainda estamos aqui.


O que a crítica está dizendo

O consensus é o mais positivo desde Music Has the Right to Children. musicOMH entregou nota máxima, descrevendo Inferno como um álbum que preserva o mistério, expande a lenda e mantém os mais altos padrões. Exclaim! confirma que o álbum cumpre a expectativa “inequivocamente”. DJ Mag, RA e Juno Daily apontam na mesma direção.

A dissidência veio do Guardian, com 40 pontos — a crítica mais negativa entre as publicações de referência. É uma posição solitária num consensus esmagador, e vale ler como contraponto: Ben Beaumont-Thomas argumenta que o álbum não avança o suficiente em relação ao que a dupla já fez. É uma leitura válida. É também exatamente o argumento que fãs de longa data vão rejeitar — porque o que os Boards of Canada fazem de melhor nunca foi avançar. Foi aprofundar.


Por que Inferno importa agora

Existe uma ironia específica no timing deste álbum. A estética dos Boards of Canada — aquela sensação de memória distorcida, de infância estranha, de beleza que carrega algo errado — se tornou onipresente nos últimos anos. Lofi hip hop. Playlists de “dark academia”. Trilhas sonoras de séries de época com síntese analógica. A influência dos irmãos Sandison está por toda parte, frequentemente sem crédito, muitas vezes diluída em produto de consumo passivo.

Inferno é a versão original de volta — e é mais difícil de engolir do que qualquer coisa que a influenciou. Não é música para trabalhar. É música para ouvir.

O título não é coincidência. Inferno como o Dante — descida, travessia, testemunho. Um álbum gravado em resposta ao que está acontecendo no mundo agora, que encontra um grão de esperança no final sem nunca pretender que o percurso foi fácil.

Para quem espera há treze anos: vale cada minuto.


Box de serviço

Inferno — Boards of Canada
Gravadora: Warp Records
Lançamento: 27 de maio de 2026
Disponível em: Spotify, Apple Music, Bandcamp (boardsofcanada.bandcamp.com), todas as plataformas


Para saber mais:

  • musicOMH — “Boards of Canada – Inferno” — musicomh.com — mai. 2026
  • Resident Advisor — “Boards of Canada – Inferno” — ra.co — mai. 2026
  • DJ Mag — “Boards of Canada – Inferno” — djmag.com — mai. 2026
  • Exclaim! — “Boards of Canada’s Inferno Is a Molten Creation Myth” — exclaim.ca — mai. 2026

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