Primeiro brasileiro a ganhar o prêmio Paul Acket de jazz, o pernambucano toca amanhã em Salvador — e há anos reescreve o que o piano pode dizer sem pedir licença a nenhum mercado
O jazz brasileiro contemporâneo tem um nome que o New York Times,
o Pitchfork e a DownBeat já tratam como fenômeno global. Boa parte do
Brasil ainda está chegando lá — e isso diz menos sobre Amaro Freitas
do que sobre a velocidade com que o país costuma reconhecer o que
produz de melhor.
Amaro nasceu em Recife em 1991, aprendeu música na igreja evangélica
do pai, estudou no Conservatório Pernambucano de Música e nunca sentiu
necessidade de mudar para São Paulo para construir uma carreira
internacional. Ele mesmo já explicou isso com clareza: sua maior
vitória é morar no Recife. A carreira veio até ele — não o contrário.
Amanhã, 30 de maio, ele sobe ao palco do Festival Salvador Jazz no
Largo da Mariquita, diante de mais de 15 mil pessoas, como headliner
da 7ª edição do festival. É a primeira vez que toca no evento — e
chega como o primeiro brasileiro a receber o prêmio Paul Acket 2026,
a mais importante honraria internacional do jazz.

O que Y’Y diz antes de tocar uma nota
Y’Y se pronuncia “iê-iê”. É uma expressão do dialeto sateré mawé, povo
indígena da Amazônia. Não é detalhe decorativo — é declaração de
intenção. Amaro há anos recusa o colonialismo até nos títulos: seu
segundo álbum se chama Rasif, de origem árabe e referência ao Recife.
O terceiro, Sankofa, toma o nome de um símbolo africano sobre aprender
com o passado. Nenhum dos quatro discos tem “a língua do colonizador”
no título, como ele mesmo afirmou.
Y’Y (2024) é uma imersão na Amazônia e uma homenagem ao percussionista
Naná Vasconcelos — o pernambucano que foi a Nova York nos anos 1970,
entrou no lendário quarteto de Pat Metheny e transformou a percussão
brasileira em linguagem universal. A conexão não é casual. Amaro
enxerga em Naná um modelo de como um músico do Nordeste pode entrar
no circuito global sem abrir mão de onde veio.
O álbum usa piano preparado — a técnica em que objetos são colocados
sobre as cordas do instrumento para alterar o timbre, associada a John
Cage e explorada por Naná na percussão. O resultado é uma sonoridade
que não soa como jazz americano, não soa como bossa nova e não soa
como nada que existia antes. Groove intenso, referências diretas à
diáspora africana, estruturas que parecem improvisadas mas carregam
construção cuidadosa em cada compasso.
A crítica global não precisou de tempo para decidir. O álbum foi eleito
o melhor de 2024 pela APCA — Associação Paulista de Críticos de Arte —
e premiado no Prêmio da Música Brasileira 2025 na categoria de música
instrumental. O New York Times, o The Guardian e o Pitchfork cobriram
o lançamento com a seriedade que reservam para poucos artistas
brasileiros por geração.

A trajetória construída de dentro para fora
Amaro começou a tocar aos 12 anos. Aos 22, conciliava os estudos no
Conservatório com apresentações em bares, churrascarias e no piano bar
Mingus — espaços onde aprendeu o que nenhum conservatório ensina: como
segurar uma sala, como improvisar quando o público muda, como fazer
jazz funcionar fora do palco consagrado.
Foi nesses ambientes que formou o trio com o baixista Jean Elton e o
baterista Hugo Medeiros. O álbum de estreia, Sangue Negro (2016), foi
lançado de forma independente e lhe rendeu o Prêmio MIMO Instrumental
— o suficiente para chegar ao Sesc Pompeia no festival Sesc Jazz e
abrir o circuito nacional.
Com Rasif (2018), já contratado pela gravadora londrina Far Out
Recordings, as críticas internacionais chegaram — na DownBeat, All
About Jazz e Jazz Magazine, publicações que há décadas definem o que
importa no jazz global, e que também dedicaram espaço ao centenário de John Coltrane celebrado em 2026,
com seis relançamentos pela Impulse! Records. Estar nessas páginas ao
lado de Coltrane não é metáfora — é a régua com que o mercado
internacional mede Amaro Freitas.
Sankofa (2021) aprofundou o diálogo com a ancestralidade africana e
confirmou que a trajetória não era acidente. Cada disco avançou a
linguagem sem repetir a fórmula anterior. É o tipo de coerência que
só aparece em quem sabe exatamente o que está fazendo — e por quê.

O que diferencia Amaro de outros pianistas do jazz brasileiro
Não é a técnica — embora a técnica seja excepcional. Não é a fusão de
gêneros — o jazz brasileiro sempre teve fusão. O que diferencia Amaro
Freitas é a escuta.
Cada disco soa como alguém que passou anos prestando atenção no que
ninguém mais estava ouvindo: a percussão afro-brasileira antes de
virar tendência, a Amazônia antes de virar pauta, a música indígena
antes de virar citação decorativa em press release. Quando essas
referências chegam ao piano de Amaro, elas não parecem pesquisadas —
parecem vividas.
Isso é raro. E é exatamente isso que o New York Times e o Pitchfork
identificaram: não um músico brasileiro que faz jazz, mas um músico
que usa o jazz para dizer algo que só ele tem a dizer. A diferença é
enorme.
Amanhã em Salvador. Em junho, em São Paulo
O Festival Salvador Jazz acontece amanhã, 30 de maio, no Largo da
Mariquita, em Salvador — entrada gratuita. O trio se apresenta com
Sidiel Vieira no contrabaixo acústico e Rodrigo Digão Braz na bateria.
O repertório percorre Y’Y e momentos centrais da discografia — de
Baquaqua, que revisita a trajetória do africano escravizado Mahommah
Gardo Baquaqua, a Gloriosa, homenagem delicada à mãe do artista.
Quem não estiver em Salvador tem oportunidade em junho: o Blue Note
São Paulo, na Avenida Paulista, segue com programação de jazz. Vale
acompanhar a agenda da casa.
Box de Serviço
Festival Salvador Jazz — 7ª edição
Data: 30 de maio de 2026
Local: Largo da Mariquita — Salvador, BA
Ingresso: gratuito
Informações: redes sociais do Festival Salvador JazzBlue Note São Paulo
Av. Paulista, 2073 — Conjunto Nacional, 2º andar — Consolação, SP
bluenotesp.com
Existe uma coerência em tudo que Amaro Freitas faz que vai além da
música. Os títulos em línguas não colonizadoras. A recusa em sair do
Recife. A homenagem a Naná Vasconcelos, que fez o mesmo caminho
décadas antes. São escolhas que revelam alguém que pensa a carreira
com o mesmo rigor com que pensa o piano — sabendo que o que você
decide não fazer diz tanto quanto o que você decide tocar.
O mundo do jazz já entendeu isso. O Brasil está entendendo agora.
Para saber mais: Portal Soteropreta; Folha de Pernambuco; Revista Prosa Verso e Arte; ELLE Brasil; Conexão Magazine; DownBeat


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