No Ichigo Ichie, dois chefs com histórias opostas se encontram num cardápio que Curitiba não tinha

No Ichigo Ichie, dois chefs com histórias opostas se encontram num cardápio que Curitiba não tinha

Ronaldo Fogaça construiu sua voz no rigor do sushi bar. Guilherme Marques passou dois anos nas costas do Mediterrâneo. O novo menu do Ichigo Ichie é o resultado desse encontro — e chega no momento em que o inverno em Curitiba pede exatamente o que ele entrega.


Ichigo ichie é um conceito japonês que não tem tradução perfeita. A ideia mais próxima é “este encontro não se repetirá jamais” — um lembrete de que cada momento tem valor próprio, irrecuperável. É um nome que carrega peso editorial para um restaurante de alta gastronomia japonesa. E o novo cardápio que o Ichigo Ichie acaba de lançar em Curitiba parece entender isso com precisão.

Desde março, o chef Ronaldo Fogaça conta com um novo par de mãos na cozinha quente: Guilherme Marques, 34 anos, 13 de profissão — sendo os dois últimos vividos entre Portugal e Espanha, nas costas do Atlântico e do Mediterrâneo. Os dois já trabalharam juntos antes, no Con, outro japonês de Curitiba. O reencontro gerou um cardápio que cruza raízes japonesas com técnica europeia sem que nenhum dos dois lados precise pedir licença ao outro.

Chefs Guilherme e Ronaldo – foto Kauana Bechtloff

A cozinha fria: o sushi bar ganha três estreias

Fogaça, aos 37 anos e com 12 de carreira, assina três novidades na bancada de sushi e sashimi — o terreno onde sua voz é mais antiga e mais precisa.

O Sashimi de Atum Selado chega com molho cítrico, toque controlado de pimenta jalapeño, ovas de tobiko black e flor de sal. Setenta e dois anos de tradição japonesa de preservação do pescado num prato que ainda encontra espaço para o acento latino da jalapeño sem perder equilíbrio. R$ 98.

O Tartar de Wagyu usa o corte bovino japonês que chefs perseguem há anos — cortado em cubos, levemente selado com molho inglês, cebolinha e ovas de tobiko red. Para acompanhar, chips de folha de arroz com pimenta togarashi, ingrediente que no Japão funciona como o sal e a pimenta funcionam aqui — onipresente, discreto, fundamental. R$ 120.

O Carpaccio de Hamachi fecha o trio com o yellowtail importado do Japão, apresentado em fatias finas com cebolinha, jalapeño e molho cítrico. O hamachi é um dos pescados mais delicados da cozinha japonesa — ganha volume no paladar antes de ser mastigado. R$ 150.


A cozinha quente: o Mediterrâneo entra na cozinha japonesa

É aqui que o cardápio ganha a dimensão que o diferencia. Guilherme Marques passou dois anos nas costas europeias aprendendo a cozinhar o mar de formas que a cozinha japonesa não pratica — e voltou para uma cozinha japonesa. O resultado não é fusão no sentido de mistura descuidada. É diálogo entre técnicas que respeitam os mesmos princípios: excelência do insumo, precisão no preparo, nada que não precise estar no prato.

A Merluza Negra é o prato que sintetiza essa conversa. O peixe de águas profundas do Alasca — um dos pescados mais valorizados da alta gastronomia — é grelhado e servido com alho-poró confit e molho beurre blanc. O beurre blanc, clássico da cozinha francesa do Vale do Loire, ganha aqui uma releitura com sakê, vinagre de arroz, dashi e creme de leite fresco. A textura aveludada do molho emulsionado com a acidez marcante do arroz e do sakê é o ponto onde a Europa e o Japão param de ser categorias separadas e viram apenas sabor. Cogumelo enoki e ovas de salmão completam o prato. R$ 189.

A Barriga de Porco Moura entra como representante paranaense na mesa. A raça suína Moura — introduzida pelos imigrantes europeus no Paraná há séculos e recentemente recuperada pela alta gastronomia pelo sabor marcante e pela textura macia — é cozida em baixa temperatura e servida com purê de maçã-verde com missô e conserva de daikon. O daikon, rabanete branco gigante da culinária japonesa, aparece aqui em conserva, trazendo a acidez que equilibra a gordura nobre do corte. R$ 110.

O Steak Poivre fecha a cozinha quente com o mignon clássico transformado pelo umami. O molho poivre — tradicional francês de pimenta — ganha aqui shiitake e kombu, a alga marinha japonesa que é uma das fontes mais concentradas de glutamato na natureza. O resultado é um prato que parece familiar e entrega algo que não estava esperado. Crispy de batata-doce roxa completa a apresentação. R$ 110.

Steak Poivre – foto Rodrigo Pierrot

O que esse cardápio diz sobre Curitiba

Curitiba tem uma cena gastronômica que costuma ser subestimada por quem não mora lá. A cidade tem frio para justificar a busca por pratos que aquecem, ingredientes regionais de qualidade real — o porco Moura é exemplo — e uma geração de chefs que passou tempo fora e voltou com vocabulário ampliado.

O Ichigo Ichie existe nesse contexto desde que abriu. O novo cardápio é o passo seguinte — o momento em que a cozinha fria e a cozinha quente passam a falar com a mesma fluência. Fogaça e Marques trabalharam juntos antes, e esse histórico aparece no resultado: não há tensão entre os dois lados do menu. É um cardápio construído por pessoas que confiam uma na técnica da outra.

Para quem está em Curitiba neste inverno — e o inverno curitibano tem essa qualidade de tornar qualquer boa refeição em memória — o Ichigo Ichie acaba de entregar um motivo novo para reservar mesa.

Ichigo Ichie cardápio
Merluza Peixe – foto Rodrigo Pierrot

BOX DE SERVIÇO

Ichigo Ichie
Jantar: segunda a sábado, das 19h às 23h30
Almoço: exclusivamente aos sábados, do meio-dia às 15h
Endereço: Av. Sete de Setembro, 5970 — Seminário, Curitiba — PR
Reservas: WhatsApp (41) 9896-4928
Instagram: @ichigocuritiba

Destaques do novo cardápio
Sashimi de Atum Selado — R$ 98
Tartar de Wagyu — R$ 120
Carpaccio de Hamachi — R$ 150
Merluza Negra — R$ 189
Barriga de Porco Moura — R$ 110
Steak Poivre — R$ 110


Fontes

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