Suehiro Maruo adapta o conto que o governo japonês censurou em 1939. Oitenta e sete anos depois, chega ao Brasil pela editora que mais leva o mangá a sério.
Era 1929 quando Edogawa Ranpo publicou A Lagarta — e o governo japonês demorou dez anos para perceber o perigo. Em 1939, dois anos depois do início da Segunda Guerra Sino-Japonesa, o conto foi proibido. A justificativa oficial: uma afronta às fantasias militaristas de um país em pleno esforço de guerra.
O protagonista é um soldado que volta para casa sem braços, sem pernas, surdo e mudo. Condecorado como herói, rapidamente esquecido pelo mundo. Restado apenas à sua esposa Tokiko, que permanece ao seu lado não por escolha, mas por convenção social — e que, com o tempo, transforma o cuidado em ressentimento, e o ressentimento em sadismo.
Era incômodo demais para um Japão que precisava de heróis inteiros.

Quem é Edogawa Ranpo — e por que ele importa
Edogawa Ranpo (1894–1965) é o pai do mistério japonês. O pseudônimo é uma homenagem fonética a Edgar Allan Poe — e a influência é literal: ficção de horror, atmosferas opressivas, psicologia perturbadora. Ranpo construiu uma obra que explorava o que a sociedade japonesa preferia não ver: desejo, crueldade, a violência silenciosa das relações humanas.
A Lagarta é um de seus trabalhos mais radicais. Não há assassinos mascarados nem detetives perspicazes. Há apenas dois seres humanos num quarto fechado — um completamente vulnerável, outro com poder absoluto — e a lenta degradação do que havia entre eles.
Quem é Suehiro Maruo — e o que é o ero guro
Suehiro Maruo é o maior nome vivo do ero guro — subgênero artístico japonês que combina erotismo e horror com imagens grotescas e uma estética que remete às gravuras ukiyo-e do período Edo. O estilo é conhecido no Japão como muzan-ê: imagens cruéis, belas e perturbadoras ao mesmo tempo.
Maruo não é um provocador de ocasião. É um desenhista extraordinário cuja linha carrega décadas de domínio técnico. Suas composições têm a precisão de quem leva a arte a sério — e a coragem de quem não suaviza o que quer mostrar.
No Brasil, já chegaram pela Pipoca & Nanquim O Estranho Conto da Ilha Panorama (também adaptação de Ranpo, premiada), O Vampiro que Ri e Midori: A Garota das Camélias. Cada lançamento confirmou a mesma coisa: Maruo é um dos poucos mangakás cujo trabalho resiste a qualquer critério de qualidade — incluindo os de quem nunca leu mangá.
O que é A Lagarta
Volume único, 148 páginas, lançado em maio de 2026 pela Pipoca & Nanquim. R$ 54,90. Papel Pólen Bold 90g, capa cartão com sobrecapa — o mesmo cuidado editorial que a PN aplica a toda a sua linha de mangá adulto.
A sinopse é a do conto de Ranpo: Sunaga volta da guerra irreconhecível, reduzido a um torso. Recebido com medalha e abandono. Tokiko, sua esposa, condenada a permanecer. O que a história acompanha não é o trauma de guerra — é o que acontece entre essas duas pessoas quando a sociedade sai de cena e fecha a porta.
Maruo encontra em Ranpo uma ressonância perfeita: o onirismo extravagante dos desenhos, os detalhes anatômicos que incomodam, a beleza formal de composições que mostram o insuportável sem recuar. A parceria entre os dois — separados por décadas, unidos por uma visão de arte que recusa o confortável — é o que torna esta edição algo além de um lançamento.

Por que isso é diferente
O mercado brasileiro de mangá cresceu de forma consistente. Quase 300 volumes foram publicados no país nos primeiros quatro meses de 2026. A esmagadora maioria é entretenimento competente — shonen, romance, ação. Nada de errado nisso.
O que a Pipoca & Nanquim faz é outra coisa: curadoria com intenção. Cada título que entra no catálogo é escolhido como se fosse o único. A Lagarta não está ali porque vende — está porque é uma obra que merece existir em português.
Num mercado que tende a tratar o mangá como produto de giro, isso é uma declaração de postura. Parecida com a de uma cervejaria que insiste no processo artesanal quando poderia escalar. Parecida com a de um estúdio de tatuagem que recusa clientes cujo pedido não cabe na capacidade do artista.
O objeto em si é o argumento.
Box de serviço
A Lagarta — Suehiro Maruo / Edogawa Ranpo
Editora: Pipoca & Nanquim
Volume único — 148 páginas — R$ 54,90
Disponível em: pipocaenanquim.com.br e livrarias especializadas
Fontes
- Pipoca & Nanquim — Checklist maio de 2026 — pipocaenanquim.com.br — mai. 2026
- JBox — “A Lagarta: Mangá de Suehiro Maruo será publicado pela Pipoca & Nanquim” — jbox.com.br — mar. 2026
- Biblioteca Brasileira de Mangás — Checklist maio de 2026 — blogbbm.com — mai. 2026


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